literatura clandestina

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De quem mais escuta conselhos sobre sua obra?

Não escuto conselhos de ninguém, nem sequer de meu médico. Eu dou conselhos a torto e à direita, mas não escuto nenhum.

A última entrevista de Roberto Bolaño

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Meu quarto. A melhor coisa que havia ali era a cama. Gostava de ficar ali deitado por horas, mesmo durante o dia, com as cobertas puxadas até o queixo. Era bom ficar ali, nada acontecia por ali, nenhuma pessoa, nada.
– Charles Bukowski

Romance em doze linhas

quanto tempo falta pra gente se ver hoje
quanto tempo falta pra gente se ver logo
quanto tempo falta pra gente se ver todo dia
quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre
quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto tempo falta pra gente se ver às vezes
quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos
quanto tempo falta pra gente não querer se ver
quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu

(Bruna Beber)

das verdades que me cercam.

Faz frio na minha casa. Minha casa tem um vento que entra na janela do banheiro, passa debaixo da porta, atravessa o corredor, me pega no sofá e entra no coração. Faz frio no meu bairro. Faz frio na cidade inteira. É só o inverno. Passa. Tenho trabalhado muito. Faz muito tempo em que se trabalha muito. Depois vem as férias, então eu descanso, todo mundo descansa. Passa. Não tenho tempo pra nada. Assim como meus amigos não têm tempo para muita coisa. As pessoas trabalham muito, lembra? Sim, quando der tempo a gente se encontra, se fala, se diverte. Uma hora isso acontece. Menos que antes, quando eu tinha vida de gato. Um dia eu fico velha e terei mais tempo. Passa. O tempo passa. Acordo com vontade de ver coisas lindas. As coisas lindas estão em todos os lugares, no caminho do trabalho, na conversa jogada fora na hora do almoço, no beijo do namorado, dentro do ipod, na risada à toa. É só saber aproveitar. Quero mudar o mundo. Reciclo o lixo, desligo a torneira, ando a pé. Planto uma árvore. Pronto. As coisas podem ser mais simples do que parecem. Cansei de pichar muros, escrever em camisetas, atormentar o vizinho. Revolução de boutique. Fazer 30 anos me parece bom. Faz muita diferença saber que não é só você que sente frio, que não tem tempo, que as coisas lindas estão em todos os lugares e que você pode ajudar a mudar o mundo em casa e não no berro. É como estar no lugar certo, na hora certa. O corpo, a alma, a beleza, a maturidade. Pensar no futuro começa a fazer sentido. E a vida esta só começando. E ela também passa. E se transforma. Pelo jeito, sempre pra melhor.Balzac que me perdoe, mas as coisas mudaram.”
Rita Wainer

buquê de presságios

De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapato.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.

Buquê de presságios –  Marcelo Montenegro

Ação gigantesca

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia
Em que o sol me olhava assustadoramente.
Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo.

Mário Gomes (CE)