quarta

estou doente e pego um táxi pro hospital. 38,8 de febre, corpo mole e querendo a minha cama mais ainda. a taxista me pergunta o que eu tenho, eu conto e ela começa a falar sem parar sobre a filha dela que pegou uma “artrite de stress” e quase ficou deitada numa cama para sempre.

no próximo semáforo pergunta da minha rotina, eu conto.  ela me fala pra ter cuidado, que a minha imunidade está baixa. “a gente se doa pro trabalho dos outros e depois eles mandam todo mundo embora. pensa na sua vida. foi assim que eu virei taxista.”

começa a contar a história. nessa altura eu estava quase chorando em bicas e ela continua: “eu acordava todo dia 4h40 pra trabalhar. ia até 22h, 23h no táxi. minha filha ficou doente, precisava de cuidado. eu já tinha uma vida boa, pra que eu queria trabalhar tanto? o meu colega de ponto tem 76 anos, ele faz isso até hoje. o meu táxi é o meu orgulho, ele sustenta duas famílias. eu ganho menos? ganho. sou mais feliz? sou. hoje eu faço tricô, faço bolo pro meu neto, pego o meu neto na escola caminhando, é bom demais! o meu colega de carro trabalha muito também, mas paga as contas em dia. e você? o que vc está fazendo? tá indo pro hospital de tanto trabalho, não pode. você é a minha última corrida, quer que eu fique com você aí? vai precisar de cuidado, de sopa.”

– não precisa não, obrigada. vai ficar tudo bem.

– vai ficar bem quando você melhorar no trabalho. chegamos. qualquer coisa me ligue, eu venho cuidar de vc. vc é boa, menina.

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