(me identifico)

Ontem acordei com aquela conhecida sensação de perda. Peguei o jornal na porta e fiquei andando pela casa, com ele na mão, sem saber o que fazer. Já devia estar habituada a tristeza que me abate nessa data, quando enfrento o mesmo frio siberiano e as mesmas recordações. Mas pensei que, depois de seis anos, teria mudado. Não tomei conhecimento da nuvenzinha negra que há duas semanas ameaçava meu humor. Ontem de manhã a coisa começou a desabar. Não existe nada que eu queira da vida. Atingi um nível de entendimento das coisas que considero satisfatório. Quer dizer, sei que sou ignorante, mas que tenho a base para deixar de ser naquilo que me interessar. O problema é que menos e menos me interesso por tudo. Considero programa ficar num sofá, sem fazer nada, nem lendo. A cabeça corre sozinha, forma conceitos, imagens, contradições, impressões etc. Nada fica ou me estimula ao esforço de completar o sugerido ou iniciado. Será a menopausa intelectual dos 40 anos, ou uma forma (ainda) branda de esquizofrenia. E o enlouquecedor, quase homicida, para mim, são as coisinhas, os envelopinhos indecifráveis disso e daquilo, os bolinhos, as comidinhas, colherzinhas, servidas por aquelas moças com cara de recepcionistas de dentista (um sorriso que sugere sadismo por procuração). Eu já derramei mesas mil, lambuzei bolo de chocolate nas paredes etc. E uma namoradinha minha, entre Milão e Paris, fez melhor, quebrou logo a mesinha, virando o copo de uísque no uniforme da aeromoça (infelizmente uísque não mancha).

Paulo Francis.

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